segunda-feira, 28 de maio de 2018

Helena

G. Seféris**

Teucro – ... para a cidade marítima, em Chipre, onde Apolo me ordenou 
habitar e dei-lhe o nome de Salamina
por causa de minha pátria... (148-150) 

Helena – Não fui a Tróia; era meu espectro...(582)

Mensageiro – Que dizes?
Por uma nuvem, então, inutilmente combatíamos? (706-7)


Eurípides, Helena

Calliandra sp.

“Os rouxinóis não te deixam dormir em Platres”.


Tímido rouxinol, em meio à respiração das folhas, 
tu que concedes a frescura melodiosa da floresta 
aos corpos separados e às almas
daqueles que não voltarão
Cega voz, que tateias na noite da memória 
passos e gestos; não ousaria dizer beijos;
e o amargo tumulto da escrava exasperada.

“Os rouxinóis não te deixam dormir em Platres”.

Que é Platres? Quem conhece essa ilha? 
Vivi a minha vida ouvindo nomes inauditos: 
novos lugares, novas loucuras dos homens 
ou dos deuses;
                             meu destino, que flutua 
entre a espada última de um Ájax
e uma outra Salamina, 
trouxe-me aqui, a este litoral.
                                              A lua 
emergiu do mar como Afrodite;
encobriu as estrelas do Arqueiro e vai agora encontrar 
o coração do Escorpião; a tudo ela transforma.
Onde está a verdade?
Era também eu, arqueiro no guerra
meu destino, o de um homem que errou o alvo. 
Rouxinol aedo,
assim como nesta noite no areal de Proteu
te ouviram as escrava de Esparta e entoaram o treno
e entre elas – quem o diria? – Helena!


Aquela que durante anos procurávamos no Escamandro. 
Lá estava ela, na orla do deserto; toquei-a, falou-me: 
“Não é verdade, não é verdade”gritava.
Não entrei no navio de proa azul
Jamais pisei a valorosa Tróia”.

Com os seios fartos, o sol nos cabelos, e aquele seu porte 
sombras e sorrisos por toda parte
nos ombos nas cochas nos joelhos;
pele viçosa, e os olhos ocm as grandes pálpebras
lá estava ela, na margem de um Delta.
                                       E em Tróia?
Nada em Tróia – um espectro.
Assim o quiseram os deuses.
E Páris deitava-se com uma sombra como se fosse uma criatura verdadeira;

e, por Helena, nós fomos trucidados dez anos.

Grande sofrimento se abatera sobre a Grécia. 
Tantos corpos lançados
às fauces do mar, às fauces da terra;
tantas almas
E os rios enchiam-se do sangue, em meio à lama,
pela flutuação de um tecido de linho por uma nuvem 

pela agitação de uma borboleta pela pluma de um cisne 
por uma camisa vazia, por uma Helena.
E meu irmão?
                             Rouxino rouxinol rouxinol


que é deus? que é não deus? e entre um e outro?
               
“Os rouxinóis não te deixam dormir em Platres”. 

Lastimoso pássaro,
                                 em Chipre beijada pelo mar 
que me destinaram para fazer-me lembrar a pátria,
ancorei sozinho com essa lenda,
se é verdade que isso é lenda,
se é verdade que os homens não experimentarão 

o antigo engano dos deuses;

                                        se é verdade 
que um outro Teucro, anos depois,
ou algum Ájax ou Príamo ou Hécuba
ou algum desconhecido, um anônimo que no entanto
tenha visto um Escamandro a transbordar de corpos, 
não está destinado a ouvir
mensageiros, que vêm dizer
que tanto sofrimento tanta vida
foram para o abismo
por uma túnica vazia por uma Helena.



(*)Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
(**) Nasceu em Esmirna, cidade grega da Ásia Menor, em 1900. Prêmio Nobel de Literatura em 1963. Faleceu em 1971, em Atenas.


Publicado na Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 14.




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