segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Zé Bebelo e o poder de entender




Disse ao senhor?- eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. Engano. O comum, com Zé Bebelo, virava diferente adiante, aprazava engano. Estudante sendo ele mesmo. Me avisou. Quis antever os cadernos, livros, pegar com as mãos. Assim ler e escrever, e as quatro contas, ele já soubesse, consumia jornais. Remexeu, tarabuz, e tudo foi assumindo na mesa grande do quarto, senhor-jesus-cristo que assoviava, o cantarolado. Mas - e aí comigo falou sério - naquilo se tinha que sungar segredo: eu visse. "Vamos constar é que estou assentando os planos! Você fica sendo meu secretário." Nesse mesmo ido dia, a gente começou. Aquele homem me exercitou tonto, eh, ô, me fino fiz. Ânsia assim e anfa, e poder de entender demais, nunca achei quem outro. O que ele queria era botar na cabeça, duma vez, o que os livros dão e não. Ele era a inteligência! Vorava. Corrido, passava de lição em lição, e perguntava, reperguntava, parecia ter até raiva de eu saber e não ele, despeito de ainda carecer de aprender, contra-fim. Queimava por noite duas, três velas. Ele mesmo falava: - "Relógio não vou olhar. Aí estudo, estudo, até que estico um cochilo. Cochilo me vem: então espairo o livro, e me deito, que me durmo." Pela sua vontade dele, simples. De dia, estávamos debulhando páginas, e de repente se levantava ele, chagava na janela, apitava num apito, ministrava aquela brama de ordens: dez, vinte executações duma vez. O pessoal corria, cumpriam; aquilo semelhava um circo, bom teatro. Mas, com menos de mês, Zé Bebelo se tinha senhoreado de reter tudo, sabia muito mais do que eu mesmo soubesse. Aí, a alegria dele ficou demasiadamente. Sobrevinha com o livro, me fazia de queima-cara um punhado de perguntas. Ao tanto eu demorava, treteava no explicar, errando a esmo, caloteava. Ai-ai-ai d'ele atalhar as minhas palavras, mostrar no livro que eu estava falso, corrigir o dito, me dar quináu. Se espocava às gargalhadas, espalmava mão, expendia outras normas, próprias de sua ideia la dele - e sendo feliz nessas dificuldades me ver, eu já ignorante, esmorecido e escabreado. Só aí, digo, foi que ele ficou gostando de mim. Certo. Me deu um abraço, me gratificou em dinheiro, me fez de firmes elogios - "Siô Baldo, já tomei os altos de tudo! mas carece de você não ir s'embora, não, mas antes prosseguir sendo secretário meu... Aponto que vamos por esse Norte, por grandes fatos, que você não se arrependerá..." - me disse - "...Norte, más bandas." Soprou, só; enche que ventava.

João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas.

A ilustração está à página 32 da graphic novel, desenhada por Rodrigo Rosa, e publicada pela Globo em 2014.

Nenhum comentário: