sábado, 7 de novembro de 2015

Um retorno

À Escandinavia. 

Encontrei um amigo. Estas folhas amarelas (e outras, vermelhas). Algum sossego.
Mais a vontade de voltar. Então lembrei de "O poeta inventa viagem, retorno, e morre de saudade", de Hilda Hilst.
Deixo aqui a parte II

Fyrisån


Meu medo, meu terror, é se disseres:
Teu verso é raro, mas inoportuno.
Como se um punhado de cerejas
A ti te fosse dado
Logo depois de haveres engolido
Um punhado maior de framboesas.

E dirias que sim, que tu me lembras.
Mas que a lembrança das coisas, das amigas
É cotidiana em ti. Que não te enganas,
Que o amor do poeta é coisa vã.

Continuarias: há o trabalho, a casa
E fidalguias
Que serão para sempre preservadas.
Se és poeta, entendes. Casa é ilha.
E o teu amor é sempre travessia.

Meu medo, meu terror, será maior
Se eu a mim mesma me disser:
Preparo-me em silêncio. Em desamor.
E hoje mesmo começo a envelhecer.


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