terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Simone Weil e a energia da verdade

Simone Weil nasceu em 03 de fevereiro de 1909 e faleceu em 1943. 

Como hoje é 03 de fevereiro, busquei na estante meu exemplar d'O Enraizamento e fiquei relendo algumas passagens destacadas há quase dez anos, quando entrei em contato com sua obra por intermédio de um professor, vero sabedor.
Transcrevo abaixo uma de especial interesse para mim, que ando pensando neste tema sugerido pelo professor, especialmente em suas possibilidades de desdobramento didático no âmbito do ensino médio:


Os sábios exigem do público que ele conceda à ciência esse respeito religioso que é devido à verdade, e o público acredita neles. Mas é enganado. A ciência não é um fruto do Espírito de verdade, e isso é evidente quando se presta atenção.
Pois o esforço da pesquisa científica, tal como foi compreendida desde o século XVI até nossos dias, não pode ter por móbile o amor pela verdade.
Há, aí, um critério cuja aplicação é universal e segura: ele consiste, para apreciar uma coisa qualquer, em tentar discernir a proporção de bem contida, não na própria coisa, mas nos móbiles do esforço que a produziu. Pois o mesmo bem que houver no móbile, haverá na própria coisa, e não mais. A fala de Cristo sobre as árvores e os frutos o garante.
Só Deus, é verdade, discerne os móbiles no íntimo dos corações. Mas a concepção que domina uma atividade, concepção que geralmente não é secreta, é compatível com certos móbiles e não com outros; há aqueles que ela exclui por necessidade, pela natureza das coisas.
Trata-se portanto de uma análise que leva a apreciar o produto de uma atividade humana particular pelo exame dos móbiles compatíveis com a concepção que aí preside.
Desta análise decorre um método para melhorar os homens – povos e indivíduos, e a si mesmo para começar – modificando as concepções de maneira a fazer agir os móbiles mais puros.
A certeza de que toda concepção incompatível com móbiles verdadeiramente puros é ela mesma maculada de erro é o primeiro artigo de fé. A fé é antes de tudo a certeza de que o bem é uno. Crer que há vários bens distintos e mutuamente independentes, como verdade, beleza, moralidade, é isso que constitui o pecado do politeísmo, e não deixar a imaginação brincar com Apolo e Diana.
Aplicando-se este método à análise da ciência dos três ou quatro últimos séculos, deve-se reconhecer que o belo nome de verdade está infinitamente acima dela. Os sábios, no esforço que fornecem dia após dia ao longo de sua vida, não podem ser impelidos pelo desejo de possuir verdade. Pois o que eles adquirem são simplesmente conhecimentos, e os conhecimentos não são por si mesmos um objeto de desejo.
Uma criança aprende uma lição de geografia para ter uma boa nota, ou por obediência às ordens recebidas, ou para dar prazer a seus pais, ou porque sente uma poesia nos países longínquos e em seus nomes. Se nenhum desses móbiles existir, ela não aprende a lição.
Se num certo momento ela ignorar qual é a capital do Brasil, e se no momento seguinte a aprender, tem um conhecimento a mais. Mas não está de modo algum mais perto da verdade do que antes. A aquisição de um conhecimento faz em certos casos aproximar-se da verdade, mas em outros casos não. Como discernir os casos?
Se um homem surpreender a mulher que ama e à qual dera toda sua confiança em flagrante delito de infidelidade, ele entra em contato brutal com a verdade. Se souber que uma mulher que não conhece, cujo nome ouve pela primeira vez, numa cidade que também não conhece, enganou seu marido, isso não muda de forma alguma sua relação com a verdade.
Este exemplo fornece a chave. A aquisição dos conhecimentos faz aproximar da verdade quando se trata do conhecimento do que se ama, e em nenhum outro caso.
Amor pela verdade é uma expressão imprópria. A verdade não é um objeto de amor. Ela não é um objeto. O que se ama é algo que existe, em que se pensa, e que por aí pode ser ocasião de verdade ou de erro. Uma verdade é sempre a verdade de alguma coisa. A verdade é o brilho da realidade. O objeto do amor não é a verdade, mas a realidade. Desejar a verdade é desejar um contato direto com a realidade. Desejar um contato com uma realidade é amá-la. Não se deseja a verdade senão para amar na verdade. Deseja-se conhecer a verdade do que se ama. Em vez de falar de amor pela verdade, mais vale falar de um espírito de verdade no amor.
O amor real e puro deseja sempre antes de tudo permanecer inteiro na verdade, qualquer que seja, incondicionalmente. Toda outra espécie de amor deseja antes de tudo satisfações, e por este fato é princípio de erro e mentira. O amor real e puro é por si mesmo espírito de verdade. É o Espírito Santo. A palavra grega que se traduz por espírito significa literalmente sopro ígneo, sopro misturado a fogo, e designava, na Antiguidade, a noção que a ciência hoje designa pela palavra energia. O que nós traduzimos como “espírito de verdade” significa a energia da verdade, a verdade como força agente. O amor puro é essa força agente, o amor que não quer a nenhum preço, em nenhum caso, nem mentira nem erro.
Para que esse amor fosse o móbile do sábio em seu esforço esgotante de pesquisa, seria preciso que ele tivesse algo a amar. Seria preciso que a concepção que ele tem do objeto de seu estudo encerrasse um bem. Ora acontece o contrário. Desde o Renascimento – mais exatamente, desde a segunda metade do Renascimento – a própria concepção da ciência é a de um estudo cujo objeto está colocado fora do bem e do mal, sobretudo fora do bem, considerado sem nenhuma relação nem com o bem nem com o mal, mais particularmente sem nenhuma relação com o bem. A ciência só estuda os fatos como tais, e os próprios matemáticos veem as relações matemáticas como fatos do espírito. Os fatos, a força, a matéria, isolados, considerados em si mesmos, sem relação com mais nada, não há nada aí que um pensamento humano possa amar.


Simone Weil, em O Enraizamento (pp. 227-229), traduzido para o português por Maria Leonor Loureiro e publicado pela EDUSC em 2001.  

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