quinta-feira, 4 de março de 2010

O Lugar da Matemática no Pensamento de Wittgenstein - Parte III


O Problema do Dogmatismo


Muitos dos grandes pensadores filosóficos do passado (Kant em especial) começaram reagindo ao dogmatismo nos pontos de vista recebidos de seus predecessores. Wittgenstein não foi o único filósofo de seu tempo que notou que os filósofos do passado não foram bem sucedidos em ultrapassar o dogmatismo por causa da introdução desapercebida de uma nova forma de dogmatismo em seus esforços para abolir as deficiências dos pontos de vista de seus predecessores. O nimbus em torno de uma doutrina filosófica nova possui um tipo de força mágica no espírito do tempo no qual a doutrina é expressa em primeira mão, tomando conta das mentes. Suas características dogmáticas não são vistas nesse nimbus. Mas conforme o tempo passa, o nimbus vai embora. O dogmatismo da doutrina aparecerá para as gerações seguintes. Se o dogmatismo é uma falha na filosofia, e a filosofia for uma doutrina substantiva, pareceria que como tal a filosofia está fadada ao fracasso”.


Para Stenlund, um dos principais objetivos do Tractatus é colocar um fim nessa repetida série de falhas. Wittgenstein expressaria com o problema de encontrar um método correto para a filosofia o problema central acerca da natureza da filosofia. Sabe-se que ele sabe que fracassou. Seria agora, no início dos anos 1930, a gramática filosófica, como uma morfologia descritiva do uso das expressões, a via para a solução daquele problema. Para Stenlund é a mudança na caracterização e prática do método gramatical o elemento decisivo da mudança no modo de pensar de Wittgenstein.

Vou traduzir agora um longo trecho de W. citado por Stenlund. É de uma ocnversa com Waissman em dezembro de 1931. É bonito. Uma espécie de “deixe-me mostrar onde eu estava fundamentalmente errado antes”:


Um erro que se pode encontrar numa abordagem dogmática é, em primeiro lugar, que ela é, como tal, arrogante. O que não é, entretanto, o pior. Há outro erro, que é muito mais perigoso e perpassa todo o meu livro, e é a concepção segundo a qual há questões para as quais as respostas serão encontradas mais tarde. Considera-se que, embora um resultado não seja conhecido, há uma maneira de encontrá-lo. Assim eu acreditava, por exemplo, que é tarefa da análise lógica descobrir as proposições elementares.


[...] A concepção errada que eu quero objetar em conexão com isso, é a seguinte: que podemos ‘achar’ [hit upon] algo que hoje não podemos ver, que podemos descobrir algo inteiramente novo. Isso é um erro. A verdade sobre isso é que nós já temos tudo, e temos tudo atualmente presente; não temos que esperar por nada. Realizamos nosso movimentos no domínio da gramática de nossa linguagem comum, e essa gramática já está lá.


[...] Sempre surge controvérsia deixando de lado ou errando em dar corretamente determinados passos, dando a impressão de que foi feita uma afirmação que pode ser disputada. Escrevi uma vez. O único método correto de fazer filosofia consiste em não dizer nada e deixar que outra pessoa faça uma afirmação. Esse é o método ao qual agora aderi (WVC PP. 182 – 183).”


Para Wittgenstein, problemas filosóficos (os que Cora Diamond chama “as Grandes Questões da filosofia” tornam-se tão gerais que não é possível delas dar conta. Mas elas podem se dissipar na medida em que aquilo que as impulsiona desaparece: a atitude dogmática (por exemplo, a idéia de que uma palavra deve ter um significado, ou de que a linguagem tem uma natureza essencialmente referencial). Como se a imponência das Grandes Questões (no caso de W. aquelas que diziam respeito à natureza e à forma geral da proposição, às condições do sentido, à natureza da linguagem) fosse desidratada, sem nada pra ser respondido depois. “Nós já temos tudo”.


Após discutir a possibilidade de interpretar a filosofia de W. como uma espécie de cientismo – já que a abordagem metodológica é inspirada em desenvolvimentos da física e da matemática modernas – afirmando que, pelo contrário, o W. pós-Tractatus não deve nada às teses cientistas daquela obra, Stenlund comenta que com Mach, Boltzmann, Hertz, Hilbert e Thomae, Wittgnestein foi estimulado a se liberar de um modo tradicional/metafísico de abordagem da ciência. Ele teria percebido o significado anti-metafísico dos motivos dos físicos e matemáticos modernos para a linguagem em geral. Nesse campo também há prejuízos com a atitude dogmática.


To be continued.

(Com a parte 4, sobre Gramática e Geometria)

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