sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Middle Wittgenstein - Parte I


Nessa semana que termina gostosamente fresca nas Laranjeiras, passei estudando um tanto e o outro organizando o quarto e a vida para as aulas que começam na semana que vem.
Com isso encontrei a pasta com o material do II Colóquio Internacional "The Middle Wittgenstein", que assisti entre os dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro no interior de São Paulo (o evento ocorreu numa simpática pousada no interior de Brotas e foi promovido pelo departamento de filosofia da USP e da UFSCar, que nas pessoas do Prof. João Vergílio Cuter e Bento Prado Neto realizaram um magnífico trabalho com palestrantes e estudantes).
Tirando os mosquitos e um pouco de tédio nos primeiros dias (um silêncio com o qual era preciso lidar com calma no bairro), foi uma das coisas mais interessantes que pude participar em minha vida acadêmica. Imagine que acordávamos cedo e todas as manhãs eram realizados seminários (em geral apresentados por João e Tuxo, com exceção de um que foi maravilhosamente bem apresentado pelo Prof. Sören Stenlund, da Universidade de Upsala) sobre os capítulos IX a XIII das Philosophische Bemerkungen, texto do período 1929-30, no qual Wittgenstein, retomando as discussões filosóficas que deixara "de molho" por quase uma década, passa a reformular tópicos tractarianos e seu modo mesmo de fazer filosofia.

O prefácio do livro diz o seguinte (vou usar a tradução brasileira, que tem vários erros, mas acertando o que acho ruim):

"Esse livro foi escrito para pessoas que têm afinidade com seu espírito. Este espírito é diferente daquele que informa a vasta corrente da civilização européia e americana de que todos somos parte. Aquele espírito tem expressão num movimento para adiante, em construir estruturas sempre mais amplas e mais complicadas; o outro consiste em lutar por clareza e perspicuidade em toda e qualquer estrutura. O primeiro tenta entender o mundo por meio de sua periferia - em sua variedade; o segundo, em seu centro - em sua natureza. E, portanto, o primeiro acrescenta uma construção à outra, avançando para frente e para o alto, por assim dizer, de uma etapa para a seguinte, ao passo que o outro permanece onde está e o que tenta entender é sempre a mesma coisa.
Gostaria de dizer que 'Este livro foi escrito para a glória de Deus'. Em nossos dias, no entanto, isso seria uma impostura, quer dizer, não seria corretamente entendido. Assim, ele foi escrito em atitude de boa vontade e, se não tiver sido escrito nessa atitude, mas por vaidade, etc., gostaria o autor que o livro fosse condenado. Ele não pode deixá-lo isento dessas impurezas exceto na medida aem que ele próprio esteja livre delas.


L.W.

Novembro de 1930
"

O que eu mais gostei dos seminários foi também o que me incomodou mais: o esforço por tentar encontrar os fios das meadas do pensamento de Wittgnestein num período em que ele estava se dando conta de que tanto o estilo quanto as teses do Tractatus não o satisfaziam mais, por diversas razões. É claro que eu peso que especialistas em um autor precisam desse tipo de discussão, mas o que me incomodava um pouco às vezes era uma certa insistência na letra do texto, não sei bem, uma leitura um tanto dura de um texto que é orgânico e, enquanto tal, com alguns fios enroscados em outros. Posso, óbvio, estar enganada, dizendo bobagem. Até porque minha leitura de Wittgenstein é, há mais de um ano, introdutória (nesse semestre pretendo assistir a disciplina do recém-contratado pelo Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Prof. Ludovic Soutif, como uma introdução sistemática a Wittgenstein) - nunca esqueço do meu professor Abel citando o professor Luiz Carlos: "Lembre-se do que diz seu orientador: o importante é botar a máquina pra funcionar". Gosto disso!

Quando das apresentações das palestras (workshops?!) pela parte da tarde, os temas abordados disseram respeito, em sua maioria, à filosofia da matemática no assim chamado "período intermediário" (de 1929 até 1934). Pra mim, pratos cheios.

Postarei separadamente nos próximos dias as minhas considerações sobre duas falas que me interessaram mais: as do Prof. Stenlund ("The Place of Mathematics in Wittgenstein's Thought") e Mathieu Marion ("Wittgenstein on Surveyability of Proofs" - tema com o qual eu estava trabalhando, com base em um outro texto de Marion, que saiu na Synthese em dezembro!). Se tiver gás, ainda comento a palestra de Ludovic sobre a aplicabilidade da artimética.

Prometo que entre um post e outro, respiro com um poema.

O melhor de tudo é que acabou meu medo de enfrentar as Remarks on the Foundations of Mathematics, um dos textos centrais pra parte wittgensteineana da minha pesquisa, e desde então tem sido um ba-ra-to (com as coceiras filosóficas e tudo! Claro, sem coceira, nnao poderia ser um barato) ler o cara. Mesmo. Por que diabos eu não tinha começado antes?

Ah sim! Uma coisa que não se pode adiar mais: começar a estudar alemão, djá!

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