domingo, 8 de junho de 2008

Uma crônica

Da velha Hilda, publicada em "Cascos & carícias & outras crônicas", pela Globo, em 2007. As crônicas foram escritas entre 1992 e 1995. Datadas, mas com sua atualidade.
A que segue é uma das minhas prediletas:

EGE (ESQUADRÃO GERIÁTRICO DE EXTERMÍNIO)

O poeta pode ser violento. A maior parte das vezes contra si mesmo. Um tiro no peito, gás, veneno, um tiro na boca, como fez Hemingway, que também foi poeta em O velho e o mar; Maiakóvski, um tiro no peito; Sylvia Plath, gás de cozinha; Ana Cristina César, um salto pelos ares; etc. etc. etc. "Os delicados preferem morrer", dizia Drummond. Mas esta modesta articulista, sobretudo poeta, diante das denúncias feitas pela revista Veja, todos aqueles poços perfurados em prol de uma única pessoa ou em prol de amiguelhos de sua excelência, presidente da Câmara, senhor Inocêncio (a indústria da seca) e o outro com seu lindo carro às custas de gaze e esparadrapo... Credo, gente, quando você vê na televisão ou in loco o povão famélico, desdentado, mirrado. Um amigo meu foi pro Ceará e passou os dias chorando! As crianças todas tortas, todos pedindo comida sem parar... e quinhentas toneladas de farinha apodrecendo... e montes de feijão desviados para uma só pessoa... (Um parênteses, porque meu coração de poeta pede a forca, o fuzilamento, a cadeia, cadeia para aqueles que se lucupetam à custa da miséria absoluta, da dor, da doença.) Gente, eu já estou uma fúria e para ficar calma proponho algumas coisas mais sutis, por exemplo: o Esquadrão Geriátrico de Extermínio, a sigla óbvia seria EGE. Arregimentáríamos várias senhoras da terceira idade, eu inclusive, lógico, e com nossas bengalinhas em ponta, uma ponta-estilete besuntada de curare (alguns jovens recrutas amigos viajariam até os Txucarramãe ou os Kranhacarore para consegui-lo) nos comícios, nos palanques, nas Câmaras, no Senado, espetaríamos as perniciosas nádegas ou o distinto buraco malcheiroso desses vilões, nós, velhinhas misturadas às massas, e assim ninguém nos notaria, como ninguém nunca nota a velhice. Nossas vidas ficariam dilatadas de significado, ó que beleza espetar bundões assassinos, nós faceiras matadoras de monstros!
O curare é altamente eficiente, provoca rapidinho a paralisia completa de todos os músculos transversais (bunda é transversal?) e em seguidinha sobrevém a morte por parada respiratória. Ficaríamos todas ao redor do coitadinho, abanando: óóóó, morreu é? Um pedido ao presidente Itamar: severidade, excelência, é ignominioso, indigno, insultante para todos nós deste pobre Brasil tão saqueado que essas terríveis denúncias terminem no vazio, no nada, na impunidade. É sobretudo perigodo porque:

de cima do palanque
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima

LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO. POLVO
UM DIA

O povo não é o rio
De mínguas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.

E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.

("Poemas aos homens do nosso tempo", parte V, in: Júbilo, memória, noviciado da paixão 2 Ed. São Paulo, Globo, 2001)

(segunda-feira, 3 de maio de 1993)

3 comentários:

cicero disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cicero disse...

bom, bem, pois entaum minha nega... não seria o mundo essa beleza suja, maculada, inerte na incerteza de agonizantes verdades e cruezas???

os delicados certamente preferem morrer...

b-jaum

Gisele disse...

Se seria, bem...
Pode ser.
O bom é que nem todos são delicados, a meu ver.