domingo, 16 de abril de 2017

Uma visita de Alcebíades



Carta do desembargador X... ao chefe de polícia da Corte

Corte, 20 de setembro de 1875.

Desculpe V. Ex.a o tremido da letra e o desgrenhado do estilo; entendê-los-á daqui a pouco. Hoje, à tardinha, acabado o jantar, enquanto esperava a hora do Cassino, estirei-me no sofá e abri um tomo de Plutarco. V. Ex.a, que foi meu companheiro de estudos, há de lembrar-se que eu, desde rapaz, padeci esta devoção do grego; devoção ou mania, que era o nome que V. Ex.a lhe dava, e tão intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. Abri o tomo, e sucedeu o que sempre se dá comigo quando leio alguma coisa antiga: transporto- me ao tempo e ao meio da ação ou da obra. Depois de jantar é excelente. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, o circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de graça. Uma verdadeira digestão literária.

Foi o que se deu hoje. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades. Deixei-me ir ao sabor da loqüela ática; daí a nada entrava nos jogos olímpicos, admirava o mais guapo dos atenienses, guiando magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as batalhas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imagine V. Ex.a se vivi! Mas, o moleque entrou e acendeu o gás; não foi preciso mais para fazer voar toda a arqueologia da minha imaginação. Atenas volveu à história, enquanto os olhos me caíam das nuvens, isto é, nas calças de brim branco, no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. E então refleti comigo:


- Que impressão daria ao ilustre ateniense o nosso vestuário moderno?
Sou espiritista desde alguns meses. Convencido de que todos os sistemas são puras niilidades, resolvi adotar o mais recreativo deles. Tempo virá em que este não seja só recreativo, mas também útil à solução dos problemas históricos; é mais sumário evocar o espírito dos mortos, do que gastar as forças críticas, e gastá-las em pura perda, porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o próprio autor do ato. E tal era o meu caso desta noite. Conjeturar qual fosse a impressão de Alcibíades era despender o tempo, sem outra vantagem, além do gosto de admirar a minha própria habilidade. Determinei, portanto, evocar o ateniense; pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora.


E aqui começa o extraordinário da aventura. Não se demorou Alcibíades em acudir ao chamado; dois minutos depois estava ali, na minha sala, perto da parede; mas não era a sombra impalpável que eu cuidara ter evocado pelos métodos da nossa escola; era o próprio Alcibíades, carne e osso, vero homem, grego autêntico, trajado à antiga, cheio daquela gentileza e desgarre com que usava arengar às grandes assembléias de Atenas, e também, um pouco, aos seus pataus. V. Ex.a, tão sabedor da história, não ignora que também houve pataus em Atenas; sim, Atenas também os possuiu, e esse precedente é uma desculpa. Juro a V. Ex.a que não acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos, não podia acabar de crer que tivesse ali, em minha casa, não a sombra de Alcibíades, mas o próprio Alcibíades redivivo. Nutri ainda a esperança de que tudo aquilo não fosse mais do que o efeito de uma digestão mal rematada, um simples eflúvio do quilo, através da luneta de Plutarco; e então esfreguei os olhos, fitei-os, e...


- Que me queres? perguntou ele.


Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto falava e falava grego, o mais puro ático. Era ele, não havia duvidar que era ele mesmo, um morto de vinte séculos, restituído à vida, tão cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão. Era claro que, sem o pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai de mim! não o entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Ele repetiu a pergunta, olhou em volta de si e sentou-se numa poltrona. Como eu estivesse frio e trêmulo (ainda o estou agora) ele que o percebeu, falou-me com muito carinho, e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o sossego e a confiança. Hábil como outrora! Que mais direi a V. Ex.a? No fim de poucos minutos conversávamos os dois, em grego antigo, ele repotreado e natural, eu pedindo a todos os santos do céu a presença de um criado, de uma visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse necessário, - de um incêndio.


Escusado é dizer a V. Ex.a que abri mão da idéia de o consultar acerca do vestuário moderno; pedira um espectro, não um homem "de verdade", como dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que ele queria; pediu-me notícias de Atenas, dei-lhas; disse-lhe que ela era enfim a cabeça de uma só Grécia, narrei-lhe a dominação muçulmana, a independência, Botzaris, lord Byron. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha boca; e, mostrando-me admirado de que os mortos lhe não houvessem contado nada, explicou-me que à porta do outro mundo afrouxavam muito os interesses deste. Não vira Botzaris nem lord Byron, - em primeiro lugar, porque é tanta e tantíssima a multidão de espíritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em segundo lugar, porque eles lá congregam-se, não por nacionalidades ou outra ordem, senão por categorias de índole, costume e profissão: assim é que ele, Alcibíades, anda no grupo dos políticos elegantes e namorados, com o duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em seguida pediu-me notícias atuais; relatei-lhe o que sabia, em resumo; falei-lhe do parlamento helênico e do método alternativo com que Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patrícios, imitam Disraeli e Gladstone, revezando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de discurso. Ele, que foi um magnífico orador, interrompeu-me:

- Bravo, atenienses!


Se entro nestas minúcias é para o fim de nada omitir do que possa dar a V. Ex.a o conhecimento exato do extraordinário caso que lhe vou narrando. Já disse que Alcibíades escutava-me com avidez; acrescentarei que era esperto e arguto; entendia as coisas sem largo dispêndio de palavras. Era também sarcástico; ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa conversação; mas no geral dela, mostrava-se simples, atento, correto, sensível e digno. E gamenho, note V. Ex.a, tão gamenho como outrora; olhava de soslaio para o espelho, como fazem as nossas e outras damas deste século, mirava os borzeguins, compunha o manto, não saía de certas atitudes esculturais.


- Vá, continua, dizia-me ele, quando eu parava de lhe dar notícias.


Mas eu não podia mais. Entrado no inextricável, no maravilhoso, achava tudo possível, não atinava por que razão, assim, como ele vinha ter comigo ao tempo, não iria eu ter com ele à eternidade. Esta idéia gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do Cassino, a morte é o último dos sarcasmos. Se pudesse fugir... Animei-me: disse- lhe que ia a um baile.


- Um baile? Que coisa é um baile?


Expliquei-lho.


- Ah! ver dançar a pírrica!


- Não, emendei eu, a pírrica já lá vai. Cada século, meu caro Alcibíades, muda de danças como muda de idéias. Nós já não dançamos as mesmas coisas do século passado; provavelmente o século XX não dançará as deste. A pírrica foi-se, com os homens de Plutarco e os numes de Hesíodo.


- Com os numes?
Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabara, que as academias do século passado ainda lhe deram abrigo, mas sem convicção, nem alma, que as mesmas bebedeiras arcádicas, 

Evoé! padre Bassareu!
Evoé! etc.

honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos, essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe, acrescentei, um ou outro poeta, um ou outro prosador alude aos restos da teogonia pagã, mas só o faz por gala ou brinco, ao passo que a ciência reduziu todo o Olimpo a uma simbólica. Morto, tudo morto.


- Morto Zeus?

- Morto.

- Dionisos, Afrodita?...

- Tudo morto.


O homem de Plutarco levantou-se, andou um pouco, contendo a indignação, como se dissesse consigo, imitando o outro: 

- Ah! se lá estou com os meus atenienses! - Zeus, Dionisos, Afrodita... murmurava de quando em quando. Lembrou-me então que ele fora uma vez acusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo donde vinha aquela indignação póstuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me, - um devoto do grego! - esquecia-me que ele era também um refinado hipócrita, um ilustre dissimulado. E quase não tive tempo de fazer esse reparo, porque Alcibíades, detendo-se repentinamente, declarou-me que iria ao baile comigo.


- Ao baile? repeti atônito.

- Ao baile, vamos ao baile.


Fiquei aterrado, disse-lhe que não, que não era possível, que não o admitiriam, com aquele trajo; pareceria doido; salvo se ele queria ir lá representar alguma comédia de Aristófanes, acrescentei rindo, para disfarçar o medo. O que eu queria era deixá-lo, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria ter com V. Ex.a. Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me com os olhos no chão, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava ali com as minhas calças, os meus sapatos e o meu século.


- Quero ir ao baile, repetiu ele. Já agora não vou sem comparar as danças.

- Meu caro Alcibíades, não acho prudente um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos atenienses; mas os outros homens de hoje, os rapazes, as moças, os velhos... é impossível.

- Por quê?

- Já disse; imaginarão que és um doido ou um comediante, porque essa roupa...

- Que tem? A roupa muda-se. Irei à maneira do século. Não tens alguma roupa que me emprestes?


Ia a dizer que não; mas ocorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então disse-lhe que sim.


- Pois bem, tornou ele levantando-se, irei à maneira do século. Só peço que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.


Levantei-me também, e pedi-lhe que me acompanhasse. Não se moveu logo; estava assombrado. Vi que só então reparara nas minhas calças brancas; olhava para elas com os olhos arregalados, a boca aberta; enfim, perguntou por que motivo trazia aqueles canudos de pano. Respondi que por maior comodidade; acrescentei que o nosso século, mais recatado e útil do que artista, determinara trajar de um modo compatível com o seu decoro e gravidade. Demais nem todos seriam Alcibíades. Creio que o lisonjeei com isto; ele sorriu e deu de ombros.


- Enfim!


Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei a mudar de roupa, às pressas. Alcibíades sentou-se molemente num divã, não sem elogiá-lo, não sem elogiar o espelho, a palhinha, os quadros. 

- Eu vestia-me, como digo, às pressas, ansioso por sair à rua, por meter-me no primeiro tílburi que passasse...


- Canudos pretos! exclamou ele.


Eram as calças pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e riu, um risinho em que o espanto vinha mesclado de escárnio, o que ofendeu grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V. Ex.a ainda que o nosso tempo nos pareça digno de crítica, e até de execração, não gostamos de que um antigo venha mofar dele às nossas barbas. Não respondi ao ateniense; franzi um pouco o sobrolho e continuei a abotoar os suspensórios. Ele perguntou-me então por que motivo usava uma cor tão feia...
- Feia, mas séria, disse-lhe. Olha, entretanto, a graça do corte, vê como cai sobre o sapato, que é de verniz, embora preto, e trabalhado com muita perfeição.
E vendo que ele abanava a cabeça:

- Meu caro, disse-lhe, tu podes certamente exigir que o Júpiter Olímpico seja o emblema eterno da majestade: é o domínio da arte ideal, desinteressada, superior aos tempos que passam e aos homens que os acompanham. Mas a arte de vestir é outra coisa. Isto que parece absurdo ou desgracioso é perfeitamente racional e belo, - belo à nossa maneira, que não andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem os oradores os seus discursos, nem os filósofos as suas filosofias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos, acabarás por gostar de nós, porque...

- Desgraçado! bradou ele atirando-se a mim.


Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem pinga de sangue. A causa era uma ilusão. Como eu passasse a gravata à volta do pescoço e tratasse de dar o laço, Alcibíades supôs que ia enforcar-me, segundo confessou depois. E, na verdade, estava pálido, trêmulo, em suores frios. Agora quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso da gravata e notei que era branca, não preta, posto usássemos também gravatas pretas. Só depois de tudo isso explicado é que ele consentiu em restituir-ma. Atei-a enfim, depois vesti o colete.


- Por Afrodita! exclamou ele. És a coisa mais singular que jamais vi na vida e na morte. Estás todo cor da noite - uma noite com três estrelas apenas - continuou apontando para os botões do peito. O mundo deve andar imensamente melancólico, se escolheu para uso uma cor tão morta e tão triste. Nós éramos mais alegres; vivíamos...
Não pôde concluir a frase; eu acabava de enfiar a casaca, e a consternação do ateniense foi indescritível. Caíram-lhe os braços, ficou sufocado, não podia articular nada, tinha os olhos cravados em mim, grandes, abertos. Creia V. Ex.a que fiquei com medo, e tratei de apressar ainda mais a saída.


- Estás completo? perguntou-me ele.

- Não: falta o chapéu.

- Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o resto! tornou Alcibíades com voz suplicante. Venha, venha. Assim pois, toda a elegância que vos legamos está reduzida a um par de canudos fechados e outro par de canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca), e tudo dessa cor enfadonha e negativa? Não, não posso crê-lo! Venha alguma coisa que corrija isso. O que é que, falta, dizes tu?

- O chapéu.

- Põe o que te falta, meu caro, põe o que te falta.

Obedeci; fui dali ao cabide, despendurei o chapéu, e pu-lo na cabeça. Alcibíades olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao ilustre ateniense, para levantá-lo, mas (com dor o digo) era tarde; estava morto, morto pela segunda vez. Rogo a V. Ex.a se digne de expedir suas respeitáveis ordens para que o cadáver seja transportado ao necrotério, e se proceda ao corpo de delito, relevando-me de não ir pessoalmente à casa de V. Ex.a agora mesmo (dez da noite) em atenção ao profundo abalo por que acabo de passar, o que aliás farei amanhã de manhã, antes das oito.

FIM


Machado de Assis

Texto extraído do Domínio Público
 

sábado, 26 de março de 2016

o que produz os ventos

Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs. A mocinha Miosótis? Não. A Rosa'uarda. Me lembrei dela; todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada - como os cavalos se arraçôam. O senhor se lembra da canção de Siruiz? Ao que aquelas crôas de areia e as ilhas do rio, que a gente avista e vai guardando para trás. Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. Antes, eu percebia a beleza daqueles pássaros, no Rio das Velhas - percebi para sempre. O manuelzinho-da-crôa. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os outros. Os cavalos relincham sem causa; os homens sabem alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. O senhor pergunte: quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele menino, o Valtêi, na hora em que o pai e a mãe judiavam dele por lei, ele pedia socôrro aos estranhos. Até o Jazavedão, estivesse ali, vinha com brutalidade de socôrro, capaz. Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

GSV, página 327 da 19a edição, 2a impressão da Nova Fronteira, 2001.

Insonia em noite de verão

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Zé Bebelo e o poder de entender




Disse ao senhor?- eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. Engano. O comum, com Zé Bebelo, virava diferente adiante, aprazava engano. Estudante sendo ele mesmo. Me avisou. Quis antever os cadernos, livros, pegar com as mãos. Assim ler e escrever, e as quatro contas, ele já soubesse, consumia jornais. Remexeu, tarabuz, e tudo foi assumindo na mesa grande do quarto, senhor-jesus-cristo que assoviava, o cantarolado. Mas - e aí comigo falou sério - naquilo se tinha que sungar segredo: eu visse. "Vamos constar é que estou assentando os planos! Você fica sendo meu secretário." Nesse mesmo ido dia, a gente começou. Aquele homem me exercitou tonto, eh, ô, me fino fiz. Ânsia assim e anfa, e poder de entender demais, nunca achei quem outro. O que ele queria era botar na cabeça, duma vez, o que os livros dão e não. Ele era a inteligência! Vorava. Corrido, passava de lição em lição, e perguntava, reperguntava, parecia ter até raiva de eu saber e não ele, despeito de ainda carecer de aprender, contra-fim. Queimava por noite duas, três velas. Ele mesmo falava: - "Relógio não vou olhar. Aí estudo, estudo, até que estico um cochilo. Cochilo me vem: então espairo o livro, e me deito, que me durmo." Pela sua vontade dele, simples. De dia, estávamos debulhando páginas, e de repente se levantava ele, chagava na janela, apitava num apito, ministrava aquela brama de ordens: dez, vinte executações duma vez. O pessoal corria, cumpriam; aquilo semelhava um circo, bom teatro. Mas, com menos de mês, Zé Bebelo se tinha senhoreado de reter tudo, sabia muito mais do que eu mesmo soubesse. Aí, a alegria dele ficou demasiadamente. Sobrevinha com o livro, me fazia de queima-cara um punhado de perguntas. Ao tanto eu demorava, treteava no explicar, errando a esmo, caloteava. Ai-ai-ai d'ele atalhar as minhas palavras, mostrar no livro que eu estava falso, corrigir o dito, me dar quináu. Se espocava às gargalhadas, espalmava mão, expendia outras normas, próprias de sua ideia la dele - e sendo feliz nessas dificuldades me ver, eu já ignorante, esmorecido e escabreado. Só aí, digo, foi que ele ficou gostando de mim. Certo. Me deu um abraço, me gratificou em dinheiro, me fez de firmes elogios - "Siô Baldo, já tomei os altos de tudo! mas carece de você não ir s'embora, não, mas antes prosseguir sendo secretário meu... Aponto que vamos por esse Norte, por grandes fatos, que você não se arrependerá..." - me disse - "...Norte, más bandas." Soprou, só; enche que ventava.

João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas.

A ilustração está à página 32 da graphic novel, desenhada por Rodrigo Rosa, e publicada pela Globo em 2014.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

das côdeas húmidas

A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que não se ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.

(Pessoa, Desassosssego, 62)

L'ombre

sábado, 7 de novembro de 2015

Um retorno

À Escandinavia. 

Encontrei um amigo. Estas folhas amarelas (e outras, vermelhas). Algum sossego.
Mais a vontade de voltar. Então lembrei de "O poeta inventa viagem, retorno, e morre de saudade", de Hilda Hilst.
Deixo aqui a parte II

Fyrisån


Meu medo, meu terror, é se disseres:
Teu verso é raro, mas inoportuno.
Como se um punhado de cerejas
A ti te fosse dado
Logo depois de haveres engolido
Um punhado maior de framboesas.

E dirias que sim, que tu me lembras.
Mas que a lembrança das coisas, das amigas
É cotidiana em ti. Que não te enganas,
Que o amor do poeta é coisa vã.

Continuarias: há o trabalho, a casa
E fidalguias
Que serão para sempre preservadas.
Se és poeta, entendes. Casa é ilha.
E o teu amor é sempre travessia.

Meu medo, meu terror, será maior
Se eu a mim mesma me disser:
Preparo-me em silêncio. Em desamor.
E hoje mesmo começo a envelhecer.


quinta-feira, 19 de março de 2015

"em estado de dicionário"

A expressão do título aparece no famoso poema de Drummond, "Procura da Poesia" (ouve-se aqui, na voz de Autran).

Lembrei dela porque fui verificar os sentidos, estacionados no dicionário, da expressão utilizada pelo agora ex-ministro da Educação, Cid Gomes, para se referir aos legisladores em uma visita à Universidade Federal do Paraná. Parece que nem foi feita em público a declaração de que nossos deputados são uns "achacadores". De todo modo, foi suficiente para ser chamado ao plenário e executar uma cena que está servindo para alimentar as imaginações políticas brasileiras, tão fracamente estimuladas cotidianamente. As pobrezinhas são alimentadas diariamente com a ração da grenalização, gerando um clima insuportável de intransigência mesmo nas conversas mais caseiras.

Fica então o registro desta curiosidade semântica, para aqueles que vez ou outra se interessam por menoridades (usei a primeira reimpressão da edição de 2009 do Dicionário Houaiss da língua portuguesa, publicado pela editora Objetiva).

achacador /ô/ adj.s.m. 1. que ou o que achaca 1.1 B infrm. que ou quem extorque dinheiro para não prender, não multar etc. ETIM. rad. do part. achacado + -or.

achacar v. (1325) 1. t.d. causar aborrecimento a; molestar, desagradar <a gritaria achacava os vizinhos> 2. t.d e t.d.pred. apontar defeito em; censurar; tachar, acusar; <aprazia-lhe a. nossos trabalhos> <achacou o artigo de panfletário> 3. intr. e pron. ter achaques; adoecer <as crianças achacam-se mais no inverno> 4. t.d. dar como motivo; alegar; pretextar <achacou indisposição para não trabalhar> 5. t.d. roubar (alguém) com ameaças, com intimidação <o ladrão achacou o pobre rapaz> 6. t.d. B. infrm. extorquir dinheiro de (alguém) [para não prender, não multar etc.] <policiais desonrosos achacam os contraventores> (...)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Simone Weil e a energia da verdade

Simone Weil nasceu em 03 de fevereiro de 1909 e faleceu em 1943. 

Como hoje é 03 de fevereiro, busquei na estante meu exemplar d'O Enraizamento e fiquei relendo algumas passagens destacadas há quase dez anos, quando entrei em contato com sua obra por intermédio de um professor, vero sabedor.
Transcrevo abaixo uma de especial interesse para mim, que ando pensando neste tema sugerido pelo professor, especialmente em suas possibilidades de desdobramento didático no âmbito do ensino médio:


Os sábios exigem do público que ele conceda à ciência esse respeito religioso que é devido à verdade, e o público acredita neles. Mas é enganado. A ciência não é um fruto do Espírito de verdade, e isso é evidente quando se presta atenção.
Pois o esforço da pesquisa científica, tal como foi compreendida desde o século XVI até nossos dias, não pode ter por móbile o amor pela verdade.
Há, aí, um critério cuja aplicação é universal e segura: ele consiste, para apreciar uma coisa qualquer, em tentar discernir a proporção de bem contida, não na própria coisa, mas nos móbiles do esforço que a produziu. Pois o mesmo bem que houver no móbile, haverá na própria coisa, e não mais. A fala de Cristo sobre as árvores e os frutos o garante.
Só Deus, é verdade, discerne os móbiles no íntimo dos corações. Mas a concepção que domina uma atividade, concepção que geralmente não é secreta, é compatível com certos móbiles e não com outros; há aqueles que ela exclui por necessidade, pela natureza das coisas.
Trata-se portanto de uma análise que leva a apreciar o produto de uma atividade humana particular pelo exame dos móbiles compatíveis com a concepção que aí preside.
Desta análise decorre um método para melhorar os homens – povos e indivíduos, e a si mesmo para começar – modificando as concepções de maneira a fazer agir os móbiles mais puros.
A certeza de que toda concepção incompatível com móbiles verdadeiramente puros é ela mesma maculada de erro é o primeiro artigo de fé. A fé é antes de tudo a certeza de que o bem é uno. Crer que há vários bens distintos e mutuamente independentes, como verdade, beleza, moralidade, é isso que constitui o pecado do politeísmo, e não deixar a imaginação brincar com Apolo e Diana.
Aplicando-se este método à análise da ciência dos três ou quatro últimos séculos, deve-se reconhecer que o belo nome de verdade está infinitamente acima dela. Os sábios, no esforço que fornecem dia após dia ao longo de sua vida, não podem ser impelidos pelo desejo de possuir verdade. Pois o que eles adquirem são simplesmente conhecimentos, e os conhecimentos não são por si mesmos um objeto de desejo.
Uma criança aprende uma lição de geografia para ter uma boa nota, ou por obediência às ordens recebidas, ou para dar prazer a seus pais, ou porque sente uma poesia nos países longínquos e em seus nomes. Se nenhum desses móbiles existir, ela não aprende a lição.
Se num certo momento ela ignorar qual é a capital do Brasil, e se no momento seguinte a aprender, tem um conhecimento a mais. Mas não está de modo algum mais perto da verdade do que antes. A aquisição de um conhecimento faz em certos casos aproximar-se da verdade, mas em outros casos não. Como discernir os casos?
Se um homem surpreender a mulher que ama e à qual dera toda sua confiança em flagrante delito de infidelidade, ele entra em contato brutal com a verdade. Se souber que uma mulher que não conhece, cujo nome ouve pela primeira vez, numa cidade que também não conhece, enganou seu marido, isso não muda de forma alguma sua relação com a verdade.
Este exemplo fornece a chave. A aquisição dos conhecimentos faz aproximar da verdade quando se trata do conhecimento do que se ama, e em nenhum outro caso.
Amor pela verdade é uma expressão imprópria. A verdade não é um objeto de amor. Ela não é um objeto. O que se ama é algo que existe, em que se pensa, e que por aí pode ser ocasião de verdade ou de erro. Uma verdade é sempre a verdade de alguma coisa. A verdade é o brilho da realidade. O objeto do amor não é a verdade, mas a realidade. Desejar a verdade é desejar um contato direto com a realidade. Desejar um contato com uma realidade é amá-la. Não se deseja a verdade senão para amar na verdade. Deseja-se conhecer a verdade do que se ama. Em vez de falar de amor pela verdade, mais vale falar de um espírito de verdade no amor.
O amor real e puro deseja sempre antes de tudo permanecer inteiro na verdade, qualquer que seja, incondicionalmente. Toda outra espécie de amor deseja antes de tudo satisfações, e por este fato é princípio de erro e mentira. O amor real e puro é por si mesmo espírito de verdade. É o Espírito Santo. A palavra grega que se traduz por espírito significa literalmente sopro ígneo, sopro misturado a fogo, e designava, na Antiguidade, a noção que a ciência hoje designa pela palavra energia. O que nós traduzimos como “espírito de verdade” significa a energia da verdade, a verdade como força agente. O amor puro é essa força agente, o amor que não quer a nenhum preço, em nenhum caso, nem mentira nem erro.
Para que esse amor fosse o móbile do sábio em seu esforço esgotante de pesquisa, seria preciso que ele tivesse algo a amar. Seria preciso que a concepção que ele tem do objeto de seu estudo encerrasse um bem. Ora acontece o contrário. Desde o Renascimento – mais exatamente, desde a segunda metade do Renascimento – a própria concepção da ciência é a de um estudo cujo objeto está colocado fora do bem e do mal, sobretudo fora do bem, considerado sem nenhuma relação nem com o bem nem com o mal, mais particularmente sem nenhuma relação com o bem. A ciência só estuda os fatos como tais, e os próprios matemáticos veem as relações matemáticas como fatos do espírito. Os fatos, a força, a matéria, isolados, considerados em si mesmos, sem relação com mais nada, não há nada aí que um pensamento humano possa amar.


Simone Weil, em O Enraizamento (pp. 227-229), traduzido para o português por Maria Leonor Loureiro e publicado pela EDUSC em 2001.